O Brasil envelhece em ritmo acelerado. Projeções do IBGE indicam que, até 2030, a população acima de 60 anos superará 30 milhões de pessoas. Esse contingente concentra internações por doenças crônicas, quedas, fraturas e complicações de polifarmácia — condições em que o estado nutricional é variável decisiva para recuperação, tempo de hospitalização e qualidade de vida após a alta.
Envelhecimento e internações
Idosos internados em hospitais públicos apresentam taxas elevadas de desnutrição ao admitir-se — entre 30% e 50%, conforme estudos em unidades de geriatria de referência. O problema frequentemente passa despercebido na admissão, porque a equipe médica prioriza a condição aguda que motivou a internação.
A avaliação nutricional na admissão, recomendada por diretrizes nacionais e internacionais, ainda não é rotina na maioria das unidades do SUS. Quando realizada, costuma ocorrer após 48 a 72 horas — período em que o paciente idoso, muitas vezes com disfagia não diagnosticada, já ingeriu quantidade insuficiente de nutrientes.
Sarcopenia e desnutrição
A sarcopenia — perda progressiva de massa e função muscular — afeta até um terço dos idosos acima de 80 anos. A condição agrava o risco de quedas, prolonga reabilitação e aumenta a dependência funcional. A intervenção nutricional, combinada com exercício supervisionado, é uma das poucas estratégias com evidência de reversão parcial.
No ambiente hospitalar, a sarcopenia se acentua pela restrição ao leito, jejum prolongado para exames e cardápios com baixa densidade proteica. Nutricionistas que atuam em enfermarias geriátricas defendem suplementação proteica precoce para pacientes sem contraindicação renal — prática ainda pouco padronizada no setor público por custo e por divergência entre serviços.
A continuidade do cuidado após a alta é ainda mais crítica. Idosos que retornam ao domicílio sem orientação alimentar adequada perdem, em média, 5% do peso corporal nos três meses seguintes à internação, segundo acompanhamento em um hospital universitário do Sudeste.
Disfagia e segurança
A disfagia — dificuldade de deglutição — é prevalente em idosos com demência, acidente vascular cerebral e doenças neurológicas. A alimentação de consistência modificada (pastosa, líquida espessada) reduz o risco de aspiração, mas exige preparo específico na cozinha hospitalar e treinamento de auxiliares de enfermagem para posicionamento correto durante as refeições.
Falhas nesse protocolo são responsáveis por pneumonia aspirativa — uma das principais causas de óbito hospitalar em idosos. A integração entre fonoaudiologia, nutrição e enfermagem é essencial, mas rara fora de hospitais de grande porte. A cobertura sobre segurança alimentar hospitalar detalha os pontos de falha na cadeia de preparo e distribuição.
Integração de equipes
Especialistas em geriatria defendem a criação de linhas de cuidado que incluam avaliação nutricional sistemática, prescrição dietética individualizada e plano de transição para o domicílio. Alguns municípios pilotam equipes de atenção domiciliar com nutricionista, articuladas à internação — modelo que reduz reinternações em experiências preliminares.
A formação continuada de profissionais é outro gargalo. Médicos e enfermeiros recebem pouca preparação em nutrição geriátrica durante a graduação. Programas de residência em geriatria incluem módulos de nutrição, mas a oferta de vagas é limitada.
O envelhecimento populacional transformará a demanda por serviços de dietética nos próximos anos. Antecipar investimentos em equipe, protocolos e integração entre níveis de atenção — da atenção primária ao hospital — é condição para que o SUS responda com qualidade a essa transição demográfica.