O Brasil registrou avanços expressivos na redução da desnutrição infantil nas últimas duas décadas. O país saiu do mapa da fome da FAO e alcançou metas de peso adequado em amplas faixas etárias. Ainda assim, indicadores de déficit de crescimento — altura para idade abaixo do esperado — persistem em municípios do semiárido nordestino, revelando desigualdade que médias nacionais obscurecem.
Panorama atual
Dados preliminares do Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (SISVAN) para 2025 indicam que, em alguns territórios do sertão pernambucano e alagoano, a prevalência de déficit de crescimento em crianças menores de cinco anos permanece acima de 8% — patamar que a Organização Mundial da Saúde classifica como de alerta.
A desnutrição crônica nessa faixa etária não se explica apenas por falta de alimento. Insegurança hídrica, parasitoses intestinais, moradia precária e interrupção do aleitamento materno antes do sexto mês contribuem para o quadro. A abordagem nutricional, portanto, precisa ser intersetorial — articulando saúde, assistência social e saneamento.
O papel do SISVAN
O SISVAN é a principal ferramenta de monitoramento do estado nutricional no SUS. Agentes comunitários de saúde e profissionais das UBS registram peso, altura e circunferência do braço durante consultas de puericultura. Os dados alimentam painéis municipais e estaduais que orientam a alocação de recursos.
Em municípios com cobertura irregular do SISVAN, a subnotificação distorce o diagnóstico. Gestores podem subestimar a gravidade do problema e postergar intervenções. A presença estável de nutricionistas na atenção primária — tema da nossa análise sobre acesso à atenção nutricional — correlaciona-se com melhor qualidade dos registros.
Programas em campo
O Programa Saúde na Hora, que amplia o horário de funcionamento de unidades básicas, tem sido utilizado em alguns municípios para oferecer avaliação nutricional em horários compatíveis com a rotina de trabalhadores rurais. Em Garanhuns (PE), a estratégia permitiu recuperar o acompanhamento de 340 crianças que estavam sem consulta há mais de um ano.
Outras iniciativas incluem hortas comunitárias vinculadas às UBS, distribuição de micronutrientes em áreas de risco e capacitação de líderes comunitários para identificar sinais precoces de desnutrição. O Bolsa Família e o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) complementam a renda e a oferta alimentar, mas não substituem o cuidado clínico individualizado.
Em casos graves, o encaminhamento para hospital de referência ativa protocolos de recuperação nutricional. A continuidade do cuidado após a alta — com acompanhamento domiciliar e orientação alimentar à família — é onde muitas intervenções perdem eficácia.
Desafios persistentes
Secas prolongadas no semiárido agravam a insegurança alimentar sazonal. Famílias que dependem de agricultura de subsistência enfrentam períodos de escassez em que a diversidade alimentar cai drasticamente. Programas de cisternas e de compra de alimentos da agricultura familiar mitigam o impacto, mas a cobertura é incompleta.
A formação de profissionais de saúde para atuar em contextos de vulnerabilidade também é insuficiente. Muitos recém-formados chegam ao sertão sem preparo para lidar com a complexidade social que envolve a desnutrição infantil.
O enfrentamento da desnutrição no Nordeste exige política de longo prazo, dados confiáveis e integração entre os níveis de atenção — da vigilância na UBS à dietética hospitalar nos casos que exigem internação.